EUA não levarão em conta posição do governo brasileiro sobre classificar o PCC como organização terrorista, diz Gakiya
11/03/2026
(Foto: Reprodução) EUA não levarão em conta posição do Brasil sobre classificar o PCC como organização terrorista
O promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MP-SP) Lincoln Gakiya, afirmou em entrevista ao Estúdio I na tarde desta quarta-feira (11) que os Estados Unidos não irão levar em conta a posição do governo brasileiro sobre classificar PCC como organização terrorista.
Nos últimos meses, ele participou de encontros com assessores diretos do secretário de estado dos EUA, Marco Rubio. "Eles queriam conhecer o funcionamento do PCC", disse o promotor.
Gakya investiga a facção criminosa há 20 anos, vive há mais de dez anos sob escolta policial 24 horas por dia por causa das ameaças de morte recorrentes que recebe. Ele é ameaçado pela facção ao menos desde 2005.
Em 2025, representantes norte-americanos estiveram em Brasília (DF) e São Paulo (SP) para obter informações detalhadas sobre a ameaça do PCC e os impactos da facção não só para o Brasil, mas também internacionalmente.
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O promotor Lincoln Gakiya falou nesta terça-feira (25) à CPI do Crime Organizado, no Congresso
Edilson Rodrigues/Agência Senado
Nesta semana, Gakiya volta a se reunir com representantes do governo dos EUA para compartilhar informações sobre o crime organizado e a atuação do PCC. A conversa deve alinhar o que estará em pauta em um encontro do promotor com a DEA (Drug Enforcement Administration), FBI (Federal Bureau of Investigation) e Departamento de Estado dos EUA em Boston, no estado de Massachusetts, ainda neste mês.
Um levantamento obtido em primeira mão pela GloboNews e pelo g1 mostrou que o PCC se instalou em aos menos 28 países e se infiltrou em presídios no exterior para recrutar novos membros e expandir negócios com tráfico de drogas e armas, além da lavagem de dinheiro. No total, são 2.078 integrantes, a maioria dentro de prisões.
O relatório do Ministério Público de São Paulo tem sido apresentado a embaixadas e consulados fora do país para cooperação internacional no combate a crimes transnacionais em pelo menos quatro continentes.
Além da expansão para diferentes territórios, o que tem chamado a atenção das autoridades e investigadores brasileiros e também estrangeiros é o fato de os integrantes do PCC terem buscados outros países não só para viagens temporárias, mas também como moradia fixa e infiltração em cadeias, uma espécie de "marca registrada" da facção criminosa paulista.
Organização terrorista
Gakiya reforçou sua postura de que o PCC não é uma organização terrorista, mas, sim, uma organização criminosa transnacional com características de máfia.
"O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo", afirmou. O foco é puramente comercial: lucro e dominação territorial."
O promotor criticou o fato de o discurso político ter se apropriado do tema, criando a falsa ideia de que a classificação de terrorismo traria endurecimento de penas ou intervenção estrangeira milagrosa.
"O discurso político se apropriou desse tema. Então, parte da população, influenciada por uma corrente política, acha que classificar essas facções como terroristas vai nos auxiliar no endurecimento de penas ou na recuperação de ativos", disse. ""Outros acham que vai haver uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil para acabar com essas facções, o que, de fato, não é a realidade. (...) O que a gente precisa é de cooperação e atuação conjunta, não é meramente uma classificação e uma intervenção de ordem militar que vai auxiliar o combate."
Gakiya alertou que, em vez de ajudar, a classificação de terrorismo pode criar barreiras burocráticas e econômicas que hoje não existem.
Segundo ele, a troca de dados entre o Ministério Público brasileiro, o FBI e a DEA ocorre de forma fluida via cooperação policial. Se o PCC for rotulado como "grupo terrorista", essas informações poderiam subir para o nível "confidencial", passando à atribuição da CIA. Isso dificultaria o acesso direto dos investigadores brasileiros aos dados.
O promotor destacou que o Brasil poderia sofrer sanções econômicas e dificuldades de acesso a bancos multilaterais (como o Banco Mundial e o BID), além de abrir caminho para que os EUA autorizem ações militares fora de seu território para combater esses grupos.
Quando você classifica uma organização como terrorista, você autoriza o governo americano a praticar, a executar ações militares fora do estado americano, e você também pode abrir aí um flanco para que o Brasil sofra algum tipo de sanção econômica e mesmo nas relações internacionais", afirmou.
"Ao contrário do que possam imaginar as pessoas, não é a classificação do PCC ou do Comando Vermelho como organizações terroristas que vai nos auxiliar, nós que estamos aqui no combate na ponta, a melhorar ou a ter mais eficiência nas investigações e no combate ao crime organizado."
EUA discutem classificar PCC e CV como terroristas
O governo brasileiro tenta frear a discussão em curso nos Estados Unidos para classificar as facções Comando Vermelho e o Primeiro PCC como organizações terroristas, pelo menos, até a conversa presencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em Washington.
Segundo fontes da diplomacia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pediu por telefone ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que não encaminhe ao Parlamento dos EUA a decisão de classificar PCC e CV como grupos terroristas.
A solicitação foi feita porque, se Rubio fizer isso, o Congresso norte-americano tem um prazo de sete dias para fazer a análise. Lincoln Gakiya entende que o PCC e o Comando Vermelho não se tratam de organizações terroristas e que se tratam de organizações criminosas transnacionais, com características até de máfia.
"O PCC é uma organização mafiosa, com atuação transnacional em mais de 28 países, pratica atos de natureza terrorista, como se viu em São Paulo nos ataques de 2006. Mas não tem objetivos políticos ou ideológicos, como os de ódio racial, de etnia ou religioso. O objetivo é de dominação territorial e lucro com negócios ilícitos", aponta o promotor de justiça.
O chanceler pediu que Rubio aguarde o encontro entre Lula e Trump, já que o governo brasileiro quer mostrar, na reunião, como tem atuado no combate ao crime organizado no país.
Lula pretende fazer uma visita oficial à Casa Branca, para se reunir com o presidente Donald Trump. A ideia inicial era que o encontro ocorresse neste mês de março, mas diante da dificuldade de agendas, uma data ainda não foi acertada.